* Acordados a noite toda, em tradução livre
Alguém duvida que a presidente Dilma Rousseff sofrerá impeachment? Nem a própria. Os desafios políticos do pós impeachment passam a ser a grande questão. Uma reforma política para valer ainda não garantiria a qualidade do voto: permanecemos chocados com a miséria política e vernacular da grande maioria de nossos deputados, escancarada quando da votação da admissibilidade do impeachment. Pessoas qualificadas e de bem têm se afastado da atividade partidária, tal o desprestígio da mesma. Mas não tem outro jeito: é preciso envolvimento a fim de reverter o quadro. Abjurar os partidos de fancaria, propor novos partidos e mergulhar neles com o fim de melhorar o perfil dos deputados. Enfim, o debate da reforma política e o engajamento partidário devem ser abraçados pela população esclarecida.
A propósito, o movimento francês Nuit Debout talvez possa nos aportar valiosos ensinamentos. Ele é genuinamente popular e se situa bem ao largo dos velhos partidos e dos especialistas tecnicistas: a política é o guia inarredável. Milhares de parisienses se reúnem todas as noites na Praça da República em Paris, até o amanhecer do sol, para discutir política e elaborar propostas políticas. Ensaiemos olhar o Nuit Debout por dentro.
Desde já, registre-se que o Nuit Debout não se restringe mais a seu berço. Este conceito de manifestação se internacionaliza. Berlim, Bruxelas, Amsterdam, Barcelona, Madri, Roma e Montreal promovem movimentos congêneres. Em todos os lugares, as nuit debout mantêm as características principais da matriz francesa: constituem-se de pessoas de um largo espectro social, que não têm ligações com partidos políticos ou sindicatos mas que vivem política.
Comunicação é fundamental. Numa pequena rua perto da Praça da República em Paris foi montado o centro de mídia, funcionando ininterruptamente, dia e noite. Uma dezena de pessoas debatem as próximas estratégias de comunicação a adotar. Uma cadeia de TV latino-americana transmite ao vivo as reuniões; um jornalista australiano procura por contatos; o líder do movimento espanhol Podemos publica matérias sobre o Nuit Debout para seus militantes. Nuit Debout mantém páginas Facebook em inglês, espanhol e italiano. Um grupo de militantes de diversos países traduz em tempo recorde artigos, comunicados e manifestos em uma dezena de línguas.
Os militantes nuit debout são predominantemente jovens. Não se pense, todavia, que eles tratam de reivindicações específicas (por exemplo, o chamado mal-estar da juventude, tão comentado nas discussões dos franceses). Não é assim: eles são altamente politizados. Na agenda do nuit debout francês: a oposição à reforma do mercado de trabalho proposta pelo desgastado governo do socialista François Hollande; o problema da emigração norte-africana e levantina; ideias para uma nova esquerda; formas de democracia direta. Enfim, Nuit Debout é o desaguadouro da profunda desconfiança de grande parte dos franceses face às instituições e às elites política, econômica e acadêmica. Até há pouco, o movimento não era uma ameaça à ordem pública, como insinuava a oposição de direita. Mas atenção, notícias de hoje, Paris está em chamas, mercê de enfrentamentos incendiários entre manifestantes e polícia. Infelizmente inevitáveis, pelo menos enquanto o governo e as elites insistirem em fazer tábua rasa das vigorosas insatisfações da população. Impor-se-ia moderação ao Nuit Debout? Talvez sim, porém nunca desistir ou arrefecer.
Nosso esperado movimento tropical, Vigilantes o dia todo, deve se preparar para o embate político que se anuncia, visando a forçar o novo executivo e o velho congresso, ambos carentes de credibilidade, a não se afastar dos interesses populares. Muitíssimo desejável, sem recurso à violência.